29 de mar de 2012

A tonga da mironga do cabuletê


A influência africana no português falado no Brasil


         A babá levou o caçula ao circo mambembe. O rapaz foi à praia de sunga e sua namorada, de tanga. Ela é seu xodó. Um sacana tomou cachaça e fez o maior bafafá. O capanga recebeu um jabaculê e o chefe ficou fulo, porque não gosta de maracutaia. Mas ele não ficou borocoxô: preferiu cair no samba, sem se importar com o zunzum.
            O parágrafo aí de cima está escrito em português do Brasil, compreensível à maioria da nossa população. Suas palavras-chave – como babá, caçula, mambembe, tanga, xodó, sacana, cachaça etc. – têm origem africana. Quase todas são faladas pelos milhões de escravos para cá trazidos ao longo de quatro séculos.
            A presença africana no português falado no Brasil é mais importante do que às vezes nos damos conta. É resultado da aculturação de inúmeros povos transplantados, falantes de vários idiomas, vinculados a duas grandes famílias lingüísticas: o ioruba e o banto.
            Durante 40 anos, a professora baiana Yeda Pessoa de Castro, doutora em Línguas Africanas, estudou e pesquisou, inclusive no Congo (ex-Zaire) e Nigéria, as relações culturais e lingüísticas entre o Brasil e a África. Os resultados desses estudos estão no livro Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro, editado pela Academia Brasileira de Letras e Editora Topbooks (2001). Trata-se de um trabalho de fôlego, dividido basicamente em duas partes. A primeira discorre, em 129 páginas, com grande erudição, sobre os povos e as línguas africanas, a matriz africana no português do Brasil e os níveis socioculturais de linguagem, e interessa sobretudo aos estudiosos e especialistas. A segunda parte, com 227 páginas, é um vocabulário com mais de três mil palavras derivadas ou decalcadas das línguas africanas e incorporadas ao falar dos quase 200 milhões de brasileiros. É leitura útil e atraente para o público em geral.
            Para a autora, esse processo de miscigenação lingüística explica basicamente as peculiaridades do falar brasileiro: “(...) as diferenças que separam o português falado no Brasil e em Portugal são, a priori, o resultado de um longo, progressivo e ininterrupto movimento explícito de aportuguesamento dos africanismos e, em sentido inverso, de africanização do português sobre uma base indígena preexistente no Brasil”.
            Ler o seu Vocabulário é fazer descobertas surpreendentes sobre palavras que freqüentam o nosso cotidiano, além das citadas no início, como: bagunça, balangandã, batucada, bunda, caçamba, canjica, catimba, forró (que nada tem a ver com o inglês “for all”, como andaram especulando), lenga-lenga, mochila, molambo, quitanda ou quitute. E terminamos por ficar sabendo que “a Tonga da mironga do cabuletê”, expressão universalizada em música de Vinícius e Toquinho, quer dizer (na língua banto) “a força do xingamento do malandro”.

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